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Resenha 

O neoliberalismo e as novas técnicas de poder

por Roberto Pereira / 5 de maio de 2020

Como o título do livro indica, “Psicopolítica – O neoliberalismo e as novas técnicas de poder”, marca o esforço do autor em traduzir as novas formas de controle e exploração capitalista na contemporaneidade. O filósofo coreano Byung-Chul Han, em poucas páginas, questiona se temos mesmo alguma liberdade diante da atual configuração capitalista, onde segundo a sua análise, deixamos de ser sujeitos submissos para nos tornar projetos livres. Tal sentimento de liberdade, de certa forma, livre das coerções externas, garante que os indivíduos, agora, sejam coagidos por si mesmos, nas formas de obrigações de desempenho e otimização.

Para analisar esse movimento, o autor lança mão de grandes nomes da Filosofia e do pensamento pós-moderno, como Hegel, Nietzsche, Heidegger, Marx, Deleuze e tantos outros, mas é na obra de Michel Foucault que o seu tema se desenvolve e é sustentado com contornos estético-teóricos da analítica do poder. Porém, assim como faz com grande parte dos autores que prefiguram sua obra, ele contesta e aponta os limites da análise foucaultiana, já que a mesma, até aquele momento, não havia percebido ou alcançado as sutilezas do controle na realidade neoliberal que se anunciava.

Dessa maneira, ao examinar as transformações do modo de produção capitalista sob o ponto de vista das novas formas de controle e dominação da sociedade, Han, como se quisesse dar continuidade a obra de Foucault exatamente a partir do conceito de Biopolítica, a despeito de não distinguí-lo de Biopoder, cunha o conceito de Psicopolítica. Enquanto no primeiro trata-se de um conjunto de técnicas e procedimentos disciplinares investidos sobre o corpo visando à dominação da população, no segundo, o autor aponta as formas sutis e imateriais de controle e vigilância, exercida de maneira voluntária pelos próprios indivíduos.

Para o autor, as novas formas de poder e controle do regime neoliberal, cujas técnicas não foram percebidas por Foucault em sua analítica, foram amplamente incrementadas, na medida em que a ética da existência e as tecnologias do eu, concebida por Foucault, na sequência de sua obra, como uma forma de oposição às tecnologias de poder e de dominação passaram a ser assimiladas a favor do sistema. Segundo Han, simplesmente foram incorporadas e mantidas por serem mais eficientes na dominação e na exploração. Assim, Byung-Chul Han descreve,

“O sujeito neoliberal de desempenho como ‘empresário de si mesmo’ explora-se voluntária e apaixonadamente. Fazer de si uma obra de arte é uma aparência bela e enganosa que o regime neoliberal mantém para explorá-lo por inteiro. A técnica de poder do regime neoliberal assume uma forma sutil. Não se apodera do indivíduo de forma direta. Em vez disso, garante que o indivíduo, por si só, aja sobre si mesmo de forma que reproduza o contexto de dominação dentro de si e o interprete como liberdade. Aqui coincidem a otimização de si e a submissão, a liberdade e a exploração. Esse estreitamento entre liberdade e exploração na forma de exploração de si escapa ao pensamento de Foucault.”

De certa forma, o texto não deixa de ter um ritmo, uma boa cadência de leitura, porém, em alguns momentos, isso nos deixa fora de compasso, pois somos impactados, sem maiores cuidados, com refutações e limites em demasiado. Em sua análise, Karl Marx também não escaparia da visita inquiridora do autor. Segundo o entendimento de Han, a hipótese de Marx de que a contradição entre as forças produtivas e as relações de produção levaria a uma revolução e a instauração de uma nova ordem social comunista, falhou miseravelmente e pelo contrário, a contradição se mostra cada vez mais insuperável. Pois é exatamente na contradição permanente que o capitalismo se impulsiona para o futuro, se reinventa, produz novos formatos de exploração e dominação. Assim, passamos pelo capitalismo industrial, transformado em neoliberalismo, e deste, para o capitalismo financeiro com seus modos de produção imateriais e pós-industriais.

E é exatamente a partir desse formato imaterial, de um mundo cada vez mais digital, onde a figura do antigo Pan-óptico, analógico por excelência, dos tempos de controle dos corpos é substituído pelo digital. No primeiro, concebido pelo filósofo inglês Jeremy Bentham no século XVIII, o Pan-óptico era uma estrutura arquitetônica construída como uma torre no centro de um pátio carcerário, de modo a permitir a vigilância dos internos. (Foucault ressaltou outros meios de confinamento, famílias, prisões, escolas, fábricas, hospitais, etc.) A idéia é que o controle do comportamento do indivíduo se daria pelo medo ou receio de estarem sendo continuamente observados. No segundo, o que se tem é completamente diferente, a visão é total e integral, é consciente e inconsciente, não existe fuga dessa vigilância, pois cada “um é o pan-óptico de si mesmo”. Por esse caminho, o autor explora a questão do “Big Data” donde se opera de forma ativa a entrega de dados com uma auto-exposição voluntária, através da qual, ainda se reivindica a transparência em nome da liberdade.

O livro em sua toada funesta, com suas inúmeras refutações, ainda aponta uma saída, porém, a mesma é altamente questionável. Não sem motivos, pois a proposta de Byung-Chul Han passa pelo dispositivo foucaultiano do cuidado de si enquanto arte de viver, o qual ele próprio, algumas linhas atrás havia criticado por este estar a serviço da ordem dominante. Sua solução, entretanto, confere a arte de viver linhas de fuga que para serem efetivas estariam ligadas a um evento de ruptura. Muitos pensadores trabalharam nessa direção. Heidegger é um deles, e o mesmo denominou este evento como “acontecimento apropriador” que pela emergência do ser, a possibilidade do surgimento de um homem novo passaria pelo abandono de muitas certezas. Segundo Han, “o acontecimento põe em jogo um fora que rompe o sujeito e arranca-o de sua sujeição”. Essa ruptura proporcionaria espaços novos de liberdade, onde as técnicas de cuidado de si poderiam produzir formas de vida completamente diferentes. Assim, se a Psicopolítica neoliberal é uma técnica de dominação ligada à manutenção do sistema, a arte de viver vai assumir uma despsicologização, esvaziando o sujeito para torná-lo livre.

Nessa perspectiva, resta-nos apenas aguardar o tal acontecimento de ruptura, que inverteria a relação de força até a queda do poder dominante. Até que isso aconteça, fica a sugestão do autor a partir da filosofia de Deleuze, qual seja, se tornar “idiota”. Na concepção do filósofo isso seria o equivalente moderno do herege, alguém que agiria na contramão do sistema já que o idiota não comunica, fica distante, não compra e não é vendido, etc. Contudo, qual é o problema? O próprio Han já havia respondido no início do livro: o sistema já exclui o “idiota”, todos aqueles que não se convertem em projeto, objeto de compra e venda, são convidados a se retirarem.

Por fim, o livro pode nos levar a alguns questionamentos fundamentais: diante do persistente e mutável sistema de dominação, onde, segundo Byung Chul Han, toda e qualquer contradição se converte em mais capitalismo, devemos considerar o fim de qualquer sonho de mudança para uma nova ordem social mais justa e igualitária? Se as afirmações da análise de Han forem verdadeiras, o fim da relação senhor-escravo não foi uma superação, antes foi um aprofundamento da exploração, já que o senhor e o escravo, agora, se dão ao mesmo tempo no indivíduo através da figura do empreendedor de si mesmo. Assim, diante dessas circunstâncias, possuir a sensação ou o sentimento de liberdade seria a melhor opção frente à impossibilidade de liberdade real e concreta? Se sua resposta for sim, possivelmente você já percebeu que não conseguimos mais direcionar nossa insatisfação para além de nós mesmos. E que agora precisamos afirmar um modo de vida em débito, achando que precisamos fazer mais e que não estamos fazendo tudo que poderíamos. Assim, naturalizamos a culpa, a angústia, a Síndrome de Burnout, nos autoexplorando, mas ainda afirmando estarmos realizados.


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